Pesquisa Datafolha divulgada no dia 20 de maio aponta, mais uma vez, o agravamento da fome no Brasil durante a pandemia. Segundo o levantamento, realizado com base em 2.071 entrevistas presenciais em 146 municípios do país entre os dias 11 e 12 de maio de 2021,  88% dos entrevistados disseram perceber que a fome no país aumentou. A situação é mais sentida por mulheres, negros e pessoas menos escolarizadas. Faltou comida para 40% dos que têm apenas o ensino fundamental completo. A fome foi mais sentida também entre moradores da região Nordeste. A falta de trabalho é outro fator que interfere: onde só um adulto trabalha, 29% tiveram menos comida que o suficiente; e onde nenhum tem trabalho, o número sobe para 35%.

Outras pesquisas e estudos recentes deixam claro o agravamento da fome no país. Mas é importante destacar que o problema da fome é secular no Brasil, muito anterior à crise provocada pela pandemia. “A fome já era identificada por Josué de Castro, influente cientista social e um dos maiores pensadores da geografia do Brasil, em seu livro Geografia da Fome: A Fome no Brasil, publicado em 1946, no qual destaca que a fome é a mais trágica expressão do subdesenvolvimento, que só desaparecerá quando for varrido do país o subdesenvolvimento econômico, com o pauperismo generalizado que este condiciona”, afirma Luciana Chinaglia Quintão, fundadora e presidente da ONG Banco de Alimentos.

A pesquisa Datafolha também revela que famílias com crianças sentem mais a fome: em 35% das casas com crianças de até 6 anos, houve menos comida na mesa do que o suficiente. As famílias em condições de vulnerabilidade mais afetadas pela crise também sofrem com a alta no preço dos alimentos, que foi de 15% só em 2020, três vezes acima da inflação registrada no período.

A fome foi mais sentida entre os negros – 28% disseram ter menos do que o suficiente para comer –  do que entre os brancos – 19%. No         que se refere às regiões, 32% dos entrevistados da região Nordeste disseram ter menos que o suficiente para comer, percentual que cai para 22% na região Sudeste.

A questão do nível educacional também interfere: entre os que têm ensino Fundamental, 40% declararam ter menos comida na mesa do que o suficiente, contra 12% daqueles que têm ensino superior.

“Acredito que a questão não é apenas econômica ou decorrente da pandemia, mas de ordem política, respaldada por um grande pedaço do corpo social que, podendo fazer diferente, aceita o inaceitável. É importante que cada um de nós coloque em prática a Inteligência Social, com base em uma inteligência coletiva presente e atuante, tendo um olhar crítico em relação à realidade e consciência de seu papel dentro da sociedade. Precisamos criar um tecido social saudável, com mudanças de paradigmas políticos, econômicos, educativos, sociais e ambientais, para que seja possível construir uma sociedade mais evoluída, na qual a humanidade é o ponto principal”, destaca Luciana.

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