Por: Luciana Chinaglia Quintão

 

Instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas, o Dia Mundial da Segurança dos Alimentos (World Food Safety Day), comemorado no dia 7 de junho, sensibiliza a população sobre os problemas associados à segurança dos alimentos, mostra como prevenir doenças e discute como promover soluções e garantir alimentos seguros. A reflexão que envolve a data sem dúvida é importante. Infelizmente porém, em muitos países do mundo, entre eles o Brasil, a questão mais urgente que hoje clama por soluções é outra: consiste em como fazer para colocar alimentos na mesa de 19 milhões de brasileiros que passam fome, em meio a 116,8 milhões que vivem em insegurança alimentar no país (pesquisa Rede Penssan), sem acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidade suficiente, desalentados em meio à pobreza e desnutrição.

 

Mundo de contrastes, Brasil de contrastes. Os números da fome no Brasil são assustadores, seja qual for a pesquisa que se tome por referência. Aumentaram com a pandemia, sim, mas estão enraizados na história do país, um país com um enorme potencial, considerado até celeiro do mundo e que, paradoxalmente, tem pobres estatísticas a exibir. Já em 1998, quando criei a ONG Banco de Alimentos para combater a fome e o desperdício de alimentos, 33,4% da população brasileira, ou 56,7 milhões de pessoas entre o total de169,8 milhões de habitantes na época, viviam na pobreza, com até meio salário mínimo mensal (dados do Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Dados da PNAD, também de 1998, já revelavam que cerca de 21 milhões de brasileiros poderiam ser classificados como indigentes.

 

Mesmo antes da pandemia do coronavírus, já existiam 57 milhões de pessoas em insegurança alimentar no Brasil. Passaram-se os anos e poucos são os avanços. Em 2021, o Brasil deve somar 61,1 milhões de pessoas vivendo na pobreza e 19,3 milhões na extrema pobreza, segundo estudo publicado em abril pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP).

 

Seria ótimo se pudéssemos nos concentrar apenas no tema deste ano proposto pelo Dia Mundial da Segurança dos Alimentos, que é Alimentos seguros agora para um amanhã saudável, destacando a necessidade de sistemas de produção sustentáveis para garantir a saúde das pessoas, do planeta e da economia no longo prazo. Mas nossa triste realidade traz demandas mais urgentes. No Brasil de hoje, 59,4% da população vive em situação de insegurança alimentar, com falta de alimentos para o suprimento de necessidades humanas básicas diárias (dados de estudo coordenado por pesquisadores brasileiros na Universidade Livre de Berlim, com o apoio da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade de Brasília, realizado entre agosto e dezembro de 2020). A situação atinge principalmente alguns estratos da população: mulheres, pessoas de cor ou raça preta e parda, moradores das regiões Norte e Nordeste e de áreas rurais e domicílios com crianças e com menor renda per capita.

 

A fome dói, mata e constitui-se em um abuso social, uma vez que impede o desenvolvimento físico e mental de um ser humano e o exclui da sociedade. E não há apenas fome de comida. Há fome de justiça, de amor, de transporte, de moradia e de educação.

 

É urgente que cada um de nós tenha um olhar crítico em relação à realidade e consciência de seu papel dentro da sociedade, para que possamos mudar paradigmas políticos, econômicos, educativos, sociais e ambientais.

 

Na minha visão, é urgente que cada brasileiro, seja qual for a sua profissão, seja também um médico social, um cidadão a serviço de um bem maior, da construção de um país melhor para todos. Vamos todos nos mobilizar e agir como médicos sociais, para assim entrarmos em ação rapidamente para construir uma sociedade mais evoluída, na qual a humanidade seja o ponto principal.

 

*Luciana Chinaglia Quintão é economista, mestre em Administração de Empresas, formada em Antroposofia, fundadora e presidente da ONG Banco de Alimentos e autora do livro Inteligência Social – A perspectiva de um mundo sem fome(s).

 

Publicado na Folha de S. Paulo, em 07/06 – acesse

 

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