Por Luciana Chinaglia Quintão*

Antes da pandemia, já era difícil para milhões de brasileiros arrumar emprego, colocar comida na mesa, ter qualidade de vida. Com a pandemia, tudo piorou, e mesmo com a perspectiva de melhora na situação da crise sanitária, a tendência é de que os índices de pobreza e a pobreza extrema no país permaneçam em níveis mais elevados que os observados antes da covid-19.

Estudo divulgado no final de agosto pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), conduzido pelo economista Daniel Duque, revela que o percentual da população pobre aumentou em 24 das 27 unidades da federação brasileira entre o primeiro trimestre de 2019 e janeiro de 2021 – na média do Brasil como um todo, a fatia da população pobre passou de 25,2% para 29,5% no período estudado. Em São Paulo, o percentual de população pobre subiu de 13,8% em 2019 para 19,7% em 2021, um aumento de 5,9 pontos percentuais. O aumento maior da pobreza no período analisado aconteceu justamente no Distrito Federal, sede do governo, onde os pobres passaram de 12,9% da população em 2019 para 20,8% em 2021, um aumento de 7,9 pontos percentuais. Os cálculos foram feitos com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua e da Pnad Covid 19, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A classificação de pobreza segue a definida pelo Banco Mundial, de renda per capita de até US$ 5,50 por dia ou cerca de R$ 450 por mês – o que significa que cerca de 62,9 milhões de brasileiros (29,5%) vivem hoje nesta situação, considerando a população atual do Brasil, de 213,3 milhões de habitantes, segundo dados recentes do IBGE. Houve ainda expansão da parcela da população em pobreza extrema em 18 das 27 unidades da federação, considerando renda per capita de US$ 1,90 por dia – cerca de R$ 160 por mês. O percentual de brasileiros em pobreza extrema passou de 6,1% no primeiro trimestre de 2019 para 9,6% em janeiro de 2021 – cerca de 20,4 milhões de pessoas. O aumento da pobreza foi maior no Nordeste e no Sudeste, em grandes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro.

Os dados do Brasil de 2021, infelizmente, estão muito próximos dos dados do Brasil de 1998, ou seja, de 23 anos atrás, quando criei a ONG Banco de Alimentos para combater a fome e o desperdício de alimentos no país. Em 1998, 33,4% da população brasileira, ou 56,7 milhões de pessoas entre o total na época de 169,8 milhões de habitantes, viviam na pobreza, com até meio salário mínimo mensal (dados do Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), também de 1998, já revelavam que cerca de 21 milhões de brasileiros poderiam ser classificados como indigentes.

É triste, muito triste ver que entra ano e sai ano e os números do país continuam a revelar tanta desigualdade social. Empresas, governo e sociedade têm o poder, a capacidade de criar soluções. Mas falta o que eu chamo de Inteligência Social, que nos traga uma  perspectiva de um mundo sem fomes! Sem fome de comida, educação, saúde, emprego, moradia, justiça social. As pessoas são as responsáveis pela construção do mundo à sua volta e é preciso expandir a Inteligência Social para a sociedade, com todas as camadas que a compõem integradas e correlacionadas conscientemente, no intuito de criar um tecido social saudável.

Como economista, acredito que a economia é uma ciência social que perpassa a vida de todos e todas. Quase sempre, porém, as políticas públicas acabam atrapalhando a economia. Temos visto a prática descaracterizada da política, de acordo com interesses de grupos diversos, e não em prol da sociedade, constituindo uma prática política ignorante e leviana em suas escolhas e ineficiente na sua responsabilidade de gerir adequadamente nossos recursos e riquezas.

A política não poderia prejudicar a economia, que deve atuar alinhada à justiça social e a formas positivas de lidar com os recursos financeiros. Saúde e educação, e, hoje, até moradias para classe de baixa renda deveriam ser providas pelo Estado que administra os impostos pagos pelos cidadãos e empresas, impostos esses que devem ser gerados por uma economia saudável.

Para que não haja dependência do Estado em tão alto nível – o que, acredito, seja o que todos queremos –, é preciso gerar empregos para que as pessoas que tiveram a sua educação garantida estejam aptas a ganhar seu sustento com dignidade, retribuindo em geração futura de riquezas para o país e aí sim tornando este país desenvolvido economicamente.

É urgente e importante que a Inteligência Social se faça presente no cotidiano, dentro dos pilares que compõem uma sociedade, em uma ordem que tenha como objetivo a evolução social e que resulte em melhora dos parâmetros sociais, econômicos, políticos e, sobretudo, humanos.

Luciana Chinaglia Quintão

Fundadora e presidente da ONG Banco de Alimentos. Autora do livro Inteligência Social – a perspectiva de um mundo sem fome(s)

 

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