Por Luciana Chinaglia Quintão*

É alarmante, é estarrecedor. No Brasil hoje, de acordo com dados do segundo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil (II VIGISAN), realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) entre o fim de 2021 e abril de 2022, há 33,1 milhões de brasileiros em estado de insegurança alimentar grave, ou seja, sem ter o que comer. A população de famintos passou de 19,1 milhões de pessoas (9% dos domicílios), no primeiro levantamento feito ao final de 2020, para 33,1 milhões (15,5% de domicílios), em 2021/2022. Ou seja, são 14 milhões de novos brasileiros em situação de fome em pouco mais de um ano. (https://olheparaafome.com.br/)

Homem segura cartaz onde pede ajuda para comer e alimentar e família, em sinal de trânsito da capital, após 1 ano sem emprego do ramo de serviços gerais. | Sérgio Lima/Poder360 02.mai.2022.

O direito à alimentação adequada está sendo violado há anos no Brasil. Houve períodos de melhoria, mas foram tímidos, frágeis. A triste realidade que vivenciamos hoje revela que as mudanças estruturais necessárias para combater a fome não foram realizadas. Os dados constatam o que nós, da ONG Banco de Alimentos, presenciamos no nosso dia a dia: a situação da fome se agravou nos anos recentes, um cenário que decorre de processos econômicos e políticos que resultam de opções da sociedade brasileira, de escolhas feitas não só pelas elites mas pela sociedade como um todo. Escolhas essas que, como eu destaco em meu livro Inteligência Social – a perspectiva de um mundo sem fome(s), poderiam ser diferentes se a inteligência coletiva fosse colocada em prática para fazer o BEM, para acabar com as várias fomes do nosso país – não só a fome de comida, mas de educação, de emprego, de saúde, de justiça social.

 

Segundo a Rede Penssan, quase 60% da população – 58,7% – vive em estado de insegurança alimentar, sem acesso regular e permanente a alimentos, nos mais variados níveis de gravidade. Ou seja, mais da metade da população do país – 125,2 milhões de pessoas — vive com algum grau de insegurança alimentar. O segundo ano da pandemia teve a sua influência nessa realidade, mas pesam a continuidade do desmonte de políticas públicas, a piora na crise econômica e o aumento das desigualdades sociais.

 

As formas mais severas de insegurança alimentar (moderada ou grave) atingem fatias maiores da população nas regiões norte (45,2%) e nordeste (38,4%). Também são maiores onde a pessoa de referência se autodeclara preta ou parda. Enquanto a segurança alimentar está presente em 53,2% dos domicílios onde a pessoa de referência se autodeclara branca, nos lares com responsáveis de raça/cor preta ou parda ela cai para 35%. Em outras palavras, 65% dos lares comandados por pessoas pretas e pardas convivem com restrição de alimentos. Além disso, em razão da desigualdade salarial entre os gêneros, as mulheres são as mais impactadas pela fome — e cada vez mais: 6 de cada 10 lares comandados por mulheres convivem com a insegurança alimentar. Nas casas em que a mulher é a pessoa de referência, a fome passou de 11,2% para 19,3%. No meio rural, a insegurança alimentar é mais grave especialmente entre os pequenos produtores. O fator educação também está presente: há fome em 22,3% dos domicílios com responsáveis com 4 anos ou menos de estudo. Em 2020 esse percentual era de 14,9%.

 

É importante destacar que entre os 33,1 milhões de brasileiros que passam fome, 27 milhões moram na periferia das médias e grandes cidades. Em razão da desigualdade, sofrem também de fome de saúde, renda, moradia, educação. São pessoas vitimadas por condições de vida que se deterioraram especialmente a partir de 2016, com o agravamento das condições sociais e econômicas e com o desmantelamento de políticas públicas, como a extinção do Conselho de Segurança Alimentar (Consea) e o enfraquecimento da participação da sociedade civil.

 

Há anos insisto: a fome dói, mata, exclui. As várias fomes são resultado da desigualdade e da injustiça social. Sempre digo que só acabaremos com a fome quando mudarmos a nossa forma de estar no mundo. Acredito que cada um, em sua área de atuação – políticos, engenheiros, advogados, empresários, donas de casa, professores, jornalistas, cineastas, trabalhadores em geral – pode ser um médico social, ou seja, deve se empenhar em mobilizar a sua inteligência para o bem coletivo, implementando iniciativas que possam fazer a sociedade evoluir. É preciso ir além, garantindo direitos de forma equânime a toda a população brasileira, entre eles a alimentação adequada, a preservação ambiental e a promoção do bem-estar.

Entrega de alimentos realiada pela ONG Banco de Alimentos
  • Fundadora e presidente da ONG Banco de Alimentos
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