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Luciana Quintão – OBA 25 anos

Foi em 1998, que, inconformada com a visão que tive da realidade à minha volta, me perguntei como poderia fazer algo a respeito. Impossível não ficar chocada em descobrir que o que via no Rio de Janeiro da minha infância, era um recorte do que acontecia sistematicamente no Brasil todo. Já nessa época, dentre 170 milhões de habitantes, 56,7% da população vivia com meio salário mínimo para baixo e dentre esses, 21 milhões eram indigentes. Essa era a realidade de um país que era então a oitava economia do mundo e, paradoxalmente, também era campeão em descarte de alimentos.

Em um impulso de coragem e idealismo, coloquei minhas aptidões de economista em prática, e criei a ONG Banco de Alimentos, organização pioneira da sociedade civil no combate à fome através do combate ao desperdício de alimentos, depois do programa Mesa São Paulo do SESC. Betinho já tinha me cativado com suas aparições e as imagens do concerto Live Aid, com as crianças passando fome na África, me deixaram a certeza de que o mundo não precisa ser assim.

Apesar de já começar as operações com uma organização governamental bem constituída e planejada deste o início, não foi nada fácil conseguir os primeiros doadores de alimentos – 400 empresas foram contatadas com zero de adesão. Começamos com o apoio de barracas de frutas, verduras e legumes dos mercados municipais de São Paulo. As dificuldades não nos levaram a desistir. Além da consciência de que estávamos fazendo algo necessário, seguimos motivados pelos sorrisos, abraços e reconhecimento a cada oportunidade de fazer chegar a comida àqueles que, apesar de terem este direito previsto na constituição, não conseguem se alimentar adequadamente.

Ao longo desses 25 anos, realizamos um trabalho de excelência em vários aspectos, incluindo advocacy e educação nutricional, além das entregas propriamente ditas de alimentos. Foram mais de 18 milhões de toneladas de alimentos doados entre a colheita urbana e combate ao desperdício de alimentos, somados a cestas básicas e cartões vale-alimentação que foram agregados à nossa tecnologia de trabalho a partir da pandemia da Covid-19. Chegamos a outros municípios e recebemos mais de 550 estagiários de curso de nutrição nesse período.

Também geramos renda, estimulando economias locais, e mais saúde para as pessoas que recebem alimentos, uma vez que o maior valor nutricional da alimentação favorece o desenvolvimento psicomotor, melhora o rendimento no trabalho, contribui para o fortalecimento do sistema imunológico e previne diversas doenças, entre outros benefícios. Outro impacto positivo da ação da ONG se dá no meio ambiente. Com a coleta de alimentos bons para o consumo que seriam descartados, contribuímos para a redução da emissão de gases de efeito estufa, promovendo assim um ciclo virtuoso.

E já temos a nossa meta para os próximos 25 anos, que é chamar a atenção para as várias fomes, para combatê-las na origem: a educação. Mas, isso fica para um próximo encontro.

Fico muito feliz em assistir hoje a um engajamento social para o combate e discussão da fome, muito maior do que há 25 anos, com o intuito de não desperdiçarmos alimentos e vidas! Este avanço é fundamental, pois apesar de termos caminhado nesse sentido, o cenário que se apresenta hoje exige mais, muito mais, pois temos hoje 58,7% da população brasileira em insegurança alimentar, sem saber se terá alimento em quantidade e qualidade suficiente em suas vidas diariamente, sendo que entre eles, 33 milhões dependem exclusivamente de terceiros para não passarem fome. Vale a pena subir no começo do texto para comparar com a realidade de 1998.

Passados 25 anos, continuo firme no meu ideal de combater a fome, mas sempre com a esperança de que um dia possa fazer uma nova constatação: a de que o meu trabalho não é mais necessário, pois a sociedade já não deixa mais a fome existir.

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