Fome e desperdício: dois desafios que ainda marcam o Brasil

À medida que iniciamos 2026, é fundamental olhar para a realidade da fome e da insegurança alimentar no Brasil com dados, contexto e um compromisso claro com a ação. Embora o país tenha conquistado avanços importantes nos últimos anos, o desafio permanece e reforça a importância do trabalho de organizações como os bancos de alimentos e de toda a sociedade civil.

Segundo a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD C) do IBGE, cerca de 54,7 milhões de pessoas vivem em insegurança alimentar, o que representa quase um em cada quatro brasileiros. Ademais, 6,4 milhões passam fome, sem consumo adequado de alimentos suficientes e regulares.

Além disso, grupos específicos enfrentam desafios ainda maiores: domicílios chefiados por mulheres e por pessoas negras apresentam proporções mais elevadas de insegurança alimentar, ressaltando que a fome está diretamente ligada a desigualdades sociais e econômicas persistentes.

No plano global, os desafios continuam severos. Estima-se que mais de 730 milhões de pessoas enfrentaram fome em 2023, o que equivale a cerca de uma em cada 11 pessoas no mundo, de acordo com o Relatório das Nações Unidas sobre Segurança Alimentar e Nutricional.
O contraponto desse cenário é que enquanto milhões passam fome, o Brasil desperdiça cerca de 55 milhões de toneladas de alimentos por ano, desde a produção no campo até o consumo final.

Esse volume é equivalente a mais de 2 milhões de caminhões pesados carregados de alimentos descartados todos os anos. Esse desperdício expressivo ocorre ao longo de diferentes etapas da cadeia alimentar, desde a produção até o consumo final.

Parte significativa das perdas acontece ainda no campo, em função de práticas agrícolas pouco eficientes, dificuldades de colheita ou impactos de eventos climáticos adversos. No percurso entre a produção e o consumo, falhas logísticas, transporte inadequado e problemas de armazenamento contribuem para o descarte de grandes quantidades de alimentos.

Já nas etapas de manufatura, varejo e serviços de alimentação, milhões de toneladas deixam de ser aproveitadas por ineficiências na gestão da cadeia de abastecimento e nos pontos de venda. Por fim, os hábitos de compra e consumo da população também desempenham um papel relevante, ampliando o desperdício no ambiente doméstico.

É importante destacar ainda que desperdício não é apenas uma questão de injustiça social, também tem enormes impactos ambientais. A comida que é produzida e não consumida exige uso de terra, água, energia e o descarte nos lixões contribui para a emissão de gases de efeito estufa.

Nesse sentido, o papel das organizações da sociedade civil e dos bancos de alimentos é essencial. Ao articular a redistribuição de alimentos, reduzir o desperdício e fortalecer redes de apoio em comunidades vulneráveis, essas iniciativas transformam pequenos gestos em impacto real.
Estudos internacionais e experiências práticas mostram que a doação de alimentos seguros e nutritivos, aliados a políticas públicas robustas, não apenas ajudam a mitigar a fome imediata, mas também fortalecem a segurança alimentar a longo prazo e promovem a justiça social.

2026 pode ser um ano diferente e melhor
Entramos em 2026 com a triste realidade de que ainda há milhões de pessoas que precisam de acesso regular a alimentos adequados. O combate à fome é um desafio coletivo, que exige união entre governo, setor privado, organizações sociais e a sociedade em geral.

Por outro lado, pode ser um ano decisivo. O Brasil tem conhecimento técnico, capacidade produtiva e uma sociedade civil engajada. O que falta é convergência entre políticas públicas, iniciativas privadas e mobilização social para enfrentar simultaneamente a fome e o desperdício de alimentos. Alimentos que atualmente vão para o lixo podem e devem alimentar pessoas. Para isso, precisamos unir esforços e transformar dados e desafios em soluções concretas.

Doar é um ato de impacto. Educar sobre segurança alimentar é um ato de mudança. Engajar a comunidade é um ato de transformação. Que 2026 seja o ano em que fazemos mais do que sonhar com um país sem fome, fazemos acontecer.

DOE https://bancodealimentos.colabore.org/doe-ong-banco-de-alimentos-pf/single_step/?utm_source=rd&utm_medium=email