Por: Luciana Chinaglia Quintão

A divisão entre os que comem e os que não comem, no mundo e no Brasil, não é nova. Atravessa os anos, os séculos, sem soluções consistentes à vista. De um lado a fome e de outro o desperdício. Estamos atolados em uma cultura do desperdício. Na realidade, o desperdício impacta todas as necessidades humanas, pois leva muitos recursos para o ralo, recursos estes que poderiam servir à construção de escolas, moradias, hospitais, saneamento básico e todo o necessário para suprir as necessidades humanas.

No Brasil, 27 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas em média a cada ano, levando em conta toda a cadeia alimentar, da produção ao consumo final, segundo dados da FAO/ONU – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura. No mundo, a FAO estima que 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçados por ano, cerca de um terço do que é produzido globalmente, considerando toda a cadeia alimentar.

A produção deste total de alimentos que é perdida responde por 8% das emissões de gases de efeito estufa do mundo. Se o desperdício de alimentos fosse um país, seria o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa do planeta; também consumiria 250 km3 de água, o equivalente a 2,7 vezes a vazão anual do Rio São Francisco, mais do que o consumo da China ou da Índia. Ou seja, toda a cadeia de produção consome recursos: usa-se água, desmata-se terras, polui-se o solo e os rios, sem que o alimento chegue às pessoas, indo parar no lixo. Um cenário de triste contradição, em que tanta gente não come e tanto alimento é simplesmente descartado.

Segundo análise da ONG Banco de Alimentos, com base em dados da Embrapa,  o desperdício de um terço de alimentos que ocorre em toda a cadeia alimentar tem a seguinte origem:

  • 10% no campo;
  • 50% no manuseio e transporte;
  • 30% nas centrais de abastecimento;
  • 10% nos supermercados e consumidores.

A Pesquisa Diálogos Setoriais União Europeia – Brasil, da Embrapa e FGV, com base em 2018 e divulgada este ano, aponta que uma família média brasileira desperdiça quase 130 kg de comida por ano, uma média de 41,6 kg por pessoa. E os alimentos que mais vão para o lixo, por percentual do total desperdiçado, são arroz (22%), carne bovina (20%), feijão (16%) e frango (15%).

Na ONG Banco de Alimentos, há 23 anos realizamos o trabalho denominado Colheita Urbana, que se inspira na ideia de reduzir o desperdício de alimentos na indústria e no comércio, e distribuir o excedente para entidades sociais, minimizando os efeitos da fome e possibilitando a complementação alimentar de qualidade em 42 entidades situadas na região da Grande São Paulo, que atendem mais de 23 mil pessoas. Além de alimentos, fornecemos Educação Nutricional às entidades sociais assistidas, levando boas práticas de manipulação, armazenamento e aproveitamento integral dos alimentos. Outra frente, a de Assistência Social, tem como objetivo fortalecer as ações realizadas em conjunto com as entidades parceiras, visando assegurar direitos relativos à assistência social, saúde e educação, trabalho desenvolvido a partir de palestras, visitas presenciais e pesquisas com colaboradores das entidades.

O aproveitamento integral dos alimentos é parte importante na luta contra o desperdício, uma vez que é muito comum as pessoas jogarem fora, sem pensar, partes dos alimentos como talos e cascas que podem se transformar em receitas nutritivas e balanceadas. As sementes, por exemplo, são ricas em fibras e gorduras boas, além de serem fontes importantes de proteína vegetal.

Em todas as frentes, as ações desenvolvidas pela ONG Banco de Alimentos, além realizarem a ponte entre os dois Brasis – o Brasil que passa fome e o Brasil que desperdiça alimentos todos os dias –, são ações estruturadas incansavelmente para que seja possível atingir um objetivo maior: o de trazer consciência à sociedade como um todo para a questão urgente do combate à fome no país.

Em um país como o Brasil, considerado celeiro do mundo mas no qual 19 milhões de pessoas passam fome, é importante que todos façam a sua parte, inclusive em prol do meio ambiente e das futuras gerações. É preciso que todos colaborem, em rede, comunicando-se de forma eficaz e colocando em prática o conceito que eu chamo de Inteligência Social: produtores de alimentos, estabelecimentos agroindustriais, distribuidores e comerciários (atacado e varejo), administrações, órgãos e demais autoridades públicas, e também quem consome. Equacionar a oferta e a demanda também é importante, em todas as etapas, assim, o produtor não joga fora quando não encontra compradores; ou uma família prepara apenas o necessário para o número de pessoas que vai sentar à mesa, sem exagero; os restaurantes e food services em geral também têm que ter um bom planejamento para a demanda, a fim de não estocar produtos além do necessário… e assim por diante.

Reduzir o desperdício de alimentos é uma missão essencial no combate à fome. Esta batalha exige o engajamento de todos e o exercício da Inteligência Social, para que seja possível transformar o que já não produz bons resultados, construir e fazer o bem e o necessário para que haja harmonia, segurança, paz, necessidades básicas atendidas, proteção do meio ambiente e uso sustentável dos recursos naturais.

 

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