Ano após ano, a crise climática domina o debate global — em fóruns como Davos, COPs e encontros multilaterais. As propostas se multiplicam, mas as ações concretas seguem muito aquém da urgência. O limite de 1,5 °C de aquecimento global, estabelecido pelo Acordo de Paris, pode ser alcançado ainda nesta década, muito antes do previsto.
Os impactos já são devastadores. Em 2025, eventos climáticos extremos — como enchentes, secas, incêndios florestais e tempestades — causaram 17,2 mil mortes e US$ 224 bilhões em perdas econômicas no mundo (Munich Re). Além de ceifar vidas, esses eventos desorganizam os sistemas alimentares: reduzem a produtividade agrícola, provocam perdas de safra, elevam preços e aumentam a instabilidade no acesso aos alimentos.
Como sempre, os mais afetados são os que menos contribuíram para o problema: pequenos agricultores, populações periféricas e vulneráveis, comunidades tradicionais e povos indígenas. No Brasil, secas prolongadas no semiárido, enchentes no Sul e alterações no regime de chuvas impactam diretamente a produção de alimentos, fato que, somado às condições de pobreza, contribui para que 54,7 milhões de brasileiros vivam hoje em insegurança alimentar. Entre eles, 6,4 milhões passam fome.
O problema vai além da quantidade. Pesquisas indicam que o aumento de CO₂ na atmosfera pode reduzir o valor nutricional de alimentos básicos como arroz, trigo e milho. Ou seja, mesmo quando há comida, ela pode nutrir menos.
Apesar desse cenário, seguimos financiando a destruição. De acordo com o relatório Estado das Finanças para a Natureza 2026, do PNUMA, para cada US$ 1 investido na proteção da natureza, o mundo gasta US$ 30 para degradá-la. Em 2023, foram US$ 7,3 trilhões em fluxos financeiros prejudiciais, provenientes principalmente de fontes privadas concentradas nos setores de utilidades, indústria, energia e materiais básicos, contra apenas US$ 220 bilhões destinados a soluções baseadas na natureza, sendo cerca da 90% vindos de fontes públicas.
Quando vamos reverter essa tendência e utilizar a nossa inteligência para o bem comum, para tomar decisões econômicas e políticas alinhadas aos limites físicos do planeta e que possam sustentar a estabilidade da vida na Terra? Quando vamos entender que isso passa por valorizar a agricultura familiar, reduzir drasticamente o desperdício de alimentos, aproximar produção e consumo, repensar hábitos e, sobretudo, assumir que cada escolha conta — de governos, empresas, escolas e sociedade em geral? São escolhas de sobrevivência.
A pergunta já não é se vamos mudar, mas quando. E a resposta precisa ser agora.
Luciana Quintão
Fundadora e presidente da ONG Banco de Alimentos