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116,8 milhões de brasileiros não têm acesso pleno e permanente a alimentos e 19 milhões passam fome

Em meio à pandemia da Covid-19, o Brasil vive um pico epidêmico da fome: 19 milhões de brasileiros enfrentam a fome no seu dia a dia. Os dados, divulgados no início de abril, são do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia, pesquisa realizada pela Rede PENSSAN – Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, com apoio da ActionAid Brasil, Fundação Friedrich Ebert Brasil, Instituto Ibirapitanga e Oxfam Brasil.

A pesquisa Inquérito Nacional baseou-se em amostra de 2.180 domicílios, considerando as cinco grandes regiões do país e a localização dos domicílios (áreas urbanas e rurais). As entrevistas foram realizadas face a face, no período de 5 a 24 de dezembro de 2020, com moradores de 1.662 domicílios urbanos e 518 domicílios rurais. As informações coletadas são pertinentes à Segurança Alimentar (SA) e Insegurança Alimentar (IA), medidas por meio da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), em sua versão de oito itens, e relativas a eventos ocorridos nos três meses anteriores à entrevista, exceto quanto às informações sobre emprego, referidas aos últimos 12 meses.

Insegurança alimentar é quando alguém não tem acesso pleno e permanente a alimentos. Hoje, em meio à pandemia, mais da metade da população brasileira está nessa situação, nos mais variados níveis: leve, moderado ou grave. E a insegurança alimentar grave afeta 9% da população – ou seja, 19 milhões de brasileiros estão passando fome.

No período abrangido pela pesquisa, 116,8 milhões de brasileiros não tinham acesso pleno e permanente a alimentos. Desses, 43,4 milhões (20,5% da população) não contavam com alimentos em quantidade suficiente (insegurança alimentar moderada ou grave) e 19,1 milhões (9% da população) estavam passando fome (insegurança alimentar grave).

“Os resultados não deixam dúvidas sobre o impacto terrível das crises econômica, política e sanitária sobre o aumento da fome no Brasil, problema que se exacerbou com a pandemia mas que já existe de longa data. A fome dói, exclui, mata e constitui-se em um abuso social, uma vez que impede o desenvolvimento físico e mental de um ser humano. Há 23 anos a ONG Banco de Alimentos luta contra a fome e o desperdício de alimentos no país. Temos fome de comida, de justiça, de amor, de transporte, de moradia e de educação. Acredito que a Inteligência Social, como relato no livro Inteligência Social – A perspectiva de um mundo sem fome(s), é o caminho para mudar essa realidade, com base em uma inteligência coletiva presente e atuante”, afirma Luciana Chinaglia Quintão, fundadora e presidente da ONG Banco de Alimentos.

Entre 2013 e 2018, segundo dados da PNAD e da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) relatados na pesquisa da PENSSAN, a insegurança alimentar grave teve um crescimento de 8% ao ano. A partir daí, a aceleração foi ainda mais intensa: de 2018 a 2020, o aumento da fome foi de 27,6%. Ou seja: em apenas dois anos, o número de pessoas em situação de insegurança alimentar grave saltou de 10,3 milhões para 19,1 milhões. Nesse período, quase 9 milhões de brasileiros e brasileiras passaram a ter a experiência da fome em seu dia a dia.

As regiões Nordeste e Norte são as mais afetadas pela fome. Em 2020, o índice de insegurança alimentar esteve acima dos 60% no Norte e dos 70% no Nordeste – enquanto o percentual nacional é de 55,2%. Já a insegurança alimentar grave (a fome), que afetou 9% da população brasileira como um todo, esteve presente em 18,1% dos lares do Norte e em 13,8% do Nordeste.

Outros dados da pesquisa revelam que:

  • A condição de pobreza das populações rurais, sejam elas de agricultores(as) familiares, quilombolas, indígenas ou ribeirinhos(as), tem reflexo importante nas condições de segurança alimentar. Nessas áreas, em todo o país, a fome se mostrou uma realidade em 12% dos domicílios.
  • Em 11,1% dos domicílios chefiados por mulheres os habitantes estavam passando fome, contra 7,7% quando a pessoa de referência era homem.
  • Das residências habitadas por pessoas pretas e pardas, a fome esteve em 10,7%. Entre pessoas de cor/raça branca, esse percentual foi de 7,5%.
  • A fome se fez presente em 14,7% dos lares em que a pessoa de referência não tinha escolaridade ou possuía Ensino Fundamental incompleto. Com Ensino Fundamental completo ou Ensino Médio incompleto, caiu para 10,7%. Em lares chefiados por pessoas com Ensino Médio completo em diante, despencou para 4,7%.
  • A fome vem acompanhada de muitas outras carências, destacadamente a falta de água. A insegurança hídrica, medida pelo fornecimento irregular ou mesmo falta de água potável, atingiu em 2020 40,2% e 38,4% dos domicílios do Nordeste e Norte, respectivamente, percentuais quase três vezes superiores aos das demais regiões. A relação entre a insegurança alimentar e a insegurança hídrica é incontestável. Segundo a pesquisa PENSSAN, a proporção de domicílios rurais com habitantes em situação de fome dobra quando não há disponibilidade adequada de água para a produção de alimentos (de 21,8% para 44,2%).
  • A insegurança alimentar pode ter avançado também entre as pessoas que não se encontram em condição de pobreza. Houve em dois anos um aumento acentuado na proporção da insegurança alimentar leve – de 20,7% para 34,7%. Cerca de metade dos entrevistados relatou redução da renda familiar durante a pandemia, provocando inclusive cortes nas despesas essenciais. Esses lares constituem o grupo com maior proporção de insegurança alimentar leve – por volta de 40%. A crise econômica agravada pela pandemia está fazendo com que a insegurança alimentar se alastre inclusive entre os que não se encontram em condição de pobreza.
  • Um dado se destaca: a insegurança alimentar moderada e grave desaparece por completo em domicílios com renda familiar mensal acima de um salário-mínimo per capita: 0,0%.
  • No que se refere à situação de trabalho da pessoa de referência dos domicílios, a ocorrência da fome foi quatro vezes superior entre aquelas com trabalho informal e seis vezes superior quando a pessoa estava desempregada.
  • Famílias que solicitaram e receberam parcelas do auxílio conviviam com alta proporção de insegurança alimentar moderada ou grave (28%), o que enfatiza a grande vulnerabilidade desse grupo. Sem uma resposta adequada dos governos em forma de políticas públicas, a fome vai persistir – e aumentar.

Detalhes sobre a pesquisa em http://olheparaafome.com.br/

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